Creio eu que uma das principais funções do cinema, como arte, é a de criar um mundo alternativo, além das nossas dores ou alegrias, um mundo irreal onde possamos nos esconder e sentir das mais diversas e verdadeiras sensações. Poucos foram e são capazes de genuínas criações desse nível e, pode-se dizer, que o americano Wes Anderson é um dos contemporâneos que consegue fazê-lo com maestria.
Estreou, neste fim de semana, no Brasil, o sétimo filme deste americano de 43 anos. Moonrise Kingdom é a
expressão de um diretor e roteirista que parece sempre se reinventar e criar personagens e ambientes fantasiosos que somente uma real mente criativa poderia conseguir.
Ele inicia o espectador em ótimos planos-sequência e loops de segmentos que deixam qualquer amante de uma boa direção estonteado, tudo bem sonorizado pela apresentação de instrumentos de uma orquestra. A apresentação ideal! E, então, enquanto escutamos a jovem voz denominando cada instrumento da composição sonora, aos nossos olhos se dá a construção de cada personagem e a riqueza das ambientações com um ótimo colorido. Detalhes de uma família disfuncional, solitários, cada qual isolado em seu mundo. Composição sinestésica ideal, o visual e o audível caminhando para campos distintos e, estranhamente, capazes de construir sensações complementares àquele que observa.
O principal enfoque da estória é tratado sem clichês e enfeites. A relação juvenil de Suzy e Sam é feita de companheirismo, ingenuidade e ótimos diálogos. A andança do pequeno escoteiro com a jovem amante
de livros ficcionais percorre caminhos incríveis, algo constante na filmografia de Wes, por causa do sempre ótimo trabalho do cinematógrafo Robert D. Yeoman. As paisagens criadas completam a amável estranheza do casal de underdogs. O diálogo que mostra como a fuga foi tramada através da troca de cartas é simplesmente genial, rápidos planos e frases fortes são suficientes para transmitir toda uma ideia.
Algo que sempre se pode esperar nos roteiros de Anderson, e nesse ele tem a co-autoria de Roman Coppola, é a diversidade de grandes personagens. Os habitantes da ilha de Nova Penzance fogem do comum, algo que varia de um casal de advogados a beira de um colapso emocional até um chefe de escoteiros confuso e desengonçado. A estória se passe em 1965 e se contemporiza em bem contados três dias que antecedem a chegada de uma grande tempestade.
O filme é um misto do mais ingênuo tipo de comédia com um drama sutil. Não há excessos e eles nem são necessários. A circunstância e o uso de falas rápidas e inteligentes é o que diverte. O roteiro tem ricos personagens numa passagem de trama simples. A construção de um mundo fantasioso e amável faz esquecer qualquer quebra surpreendente que poderia se pedir num roteiro. Sabemos como se encaminhará o ritmo da narrativa, mas isso é que o torna tão interessante. O filme é suficiente. Encanta, entretém e passa, como uma história da infância de cada um, que apesar da distância do tempo, deixa uma sensação no peito saudosista e afável.
TRAILER DO FILME
* Escrito por Hotton Machado



Sâmia Laços, estudante de Jornalismo apaixonada por decoração, design e tudo o que é capaz de levar inspiração às nossas rotinas.
